terça-feira, março 12

"Saí da casa de minha amiga para um sol de três horas da tarde, e num bairro que raramente frequento, Urca. O que mais acresceu minha perdição. Estranhei tudo. E, por me estranhar, vi-me por um instante como sou. Gostei ou não? Simplesmente aceitei. Tomei um táxi que me deixaria em casa, e refleti sem amargura: muita coisa inútil na vida da gente serve como esse táxi: para nos transportar de um ponto útil a outro. E eu nem quis conversar com o chofer" Aprendendo a Viver - Clarice Lispector

domingo, março 10

Para um amigo distante e taciturno

Eu não te diria para chorar mas sim para que sorrisse. Não te aconselharia a entender o passado mas sim a que vivesse o presente. Não te ajudaria a lembrar o que ficou mas sim te apoiaria a ter esperança no que esta por vir. Não quereria que escrevesse sobre tua dor mas sim que desenhasse tua alegria. Não sei se o que digo é certo ou errado mas, não sou terapeuta, sou amiga. Sendo assim, a mim é resguardado o direito de dar conselhos, ainda que errados, crivados de amor. E, ainda que não possas escutar o som intempestivo de uma risada despropositada é contigo que estão meus pensamentos repletos de expectativas de em ti reencontrar aquela aura de quem tem urgência de vida, calor e brilho.

quarta-feira, agosto 22

Bee

Quando me propus a organizar a série “mulheres da minha vida” foi nela em que pensei primeiro e para ela quis escrever. Especialmente esse texto eu nunca consegui terminar apesar de inumeráveis vezes tê-lo começado. Ainda agora sofro com o texto que deveria ser e não é e, por não ser, tanto me angustia. Queria, em palavras charmosas, te dizer que me apaixonei pela mulher de sagitário, me enfeiticei pelo cabelo ruivo, me encantei com sua eterna busca, me ofusquei com seu brilhantismo. Queria, de forma interessante, te contar como amava seu humor irônico e seu olhar sagaz, que sua verdade lancinante torturava minha alma, que sua dor sincera me enfraquecia e sua risada me acalmava o espírito. Queria, em poesia, te definir. Tu que é toda em vermelho: vermelho-fogo, vermelho-sangue, vermelho-fênix, vermelho-paixão, vermelho por-do-sol. Queria, melancolicamente, te confessar que quando te tive forte me amparei e quando te tive humana me desesperei. Queria, de forma singular, te explicar o amor e a inveja, a saudade e a presença, a admiração e a subserviência. No entanto, de tanto querer dizer, me calo e me recolho... Ao sofrimento dos incapazes.

quinta-feira, julho 19

meu Destino

Eu te disse: se você pudesse imaginar o que aconteceu naqueles dias. Você novamente pediu desculpas dizendo que foi um desencontro. Te acalmei e falei que não importava mais, fora apenas uma obra do destino e agora nada mais que uma história engraçada. Sorrindo, você me perguntou o que acontecera. Sorrindo, eu não quis te contar... tive ciúmes do meu segredo com o Destino. Conheci o Destino desenhado no teu corpo. Naquele momento, me encantei, não por você, pelo Destino. Percebi que poderia ser para ele um brinquedo, inconsequentemente, estava à sua mercê e me permitiria o que ele quisesse. Não era ele o meu destino, era eu o teu joguete. Assim, construímos nossa história. Eu, cega e o Destino, sarcástico. Sofri. Mas de tão apaixonada, ele me iludia sem esforço e eu me entregava novamente. Eu perguntava seus intentos e ele, malicioso, negava. Implorava pela tranquilidade e, ele me batia como um furacão. Pedia pela emoção e ele me angustiava com o tédio. Quando me revoltei ele disse tudo bem, tenha o que desejar. Eu disse não, implorei, chorei, pedi que voltasse e fosse rei da minha vida. O Destino, tantas vezes me fez feliz quanto me fez desesperada e, eu faminta, faminta pelo Destino. Eu te engano porque sou do Destino e faço o que lhe satisfaz. Quando disse que te amava eu mentia, porque o Destino mandou. E quando te deixei, não pense que não sofri, mas, assim o quis o Destino, senhor de minha vida. E, sigo, dia após dia, a mercê de Seus caprichos, escrava do Destino.

sábado, junho 16

Súbito: seus olhos

Mais por curiosidade que por saudade, há tempos que te procuro e me pego em joguetes ao imaginar como você seria hoje. Parece que faz tanto tempo e que eramos somente crianças, no entanto, ainda me sinto uma criança apesar de saber que já não sou mais a mesma. E, por me imaginar tão mudada tento adivinhar suas mudanças. Divagando, vários anônimos, por uma fração de segundo, já foram você: o dorso de um ciclista, as mãos de um acordeonista, o perfil de qualquer pacifista, o sorriso de um belo rosto, o cheiro de um transeunte. Em um dia qualquer eu nem me lembrava, mas, súbito: seus olhos! Inebriada pela confusão, perdida no tumulto: angústia, calor, barulho e, ao longe, seus olhos. Mais uma vez: seus olhos! Teu olhar por um instante, encontrou o meu e, incrédulo você procurou novamente mas eu não estava mais ao seu alcance. Segui meu caminho. Não é que eu fugisse, eu apenas não precisava de nada mais que um segundo do teu olhar e, com um segundo do teu olhar te compreendi. Súbito, fugaz e vivo reconheci no teu olhar a mesma ansiedade inquietante daqueles que não precisam se adequar ao mundo real e, tive paz. Com a certeza da história vivida, do sentimento real e do fim necessário segui meu caminho, com um leve sorriso nos lábios.

sexta-feira, março 23

Mais um para ela

Porque é a lembrança dela que não me permite desistir do blog apesar de tê-lo abandonado.
Porque, ela tem tanta poesia na alma, que todo o amor gerado se expande em uma brilhante escudo para protegê-la de tudo o que é mau.

Porque ninguém, nunca, disse tanto de mim em tão poucas palavras é que me dou ao direito de roubar teu texto para te homenagear mais uma vez nesse blog.


Fazia anos que não se viam. Ainda de longe seus olhares se encontraram. Desta vez foram os olhos dele que a procuraram. Ao se aproximarem, continuaram uma conversa nunca antes começada.

Ele: Posso te perguntar uma última coisa?
Ela (com um leve sorriso nos lábios) : Claro!
Ele: Você me amou?
Ela(ainda sorrindo): Te amei de uma maneira como nunca havia amado. Te amei de maneira ardentemente doce, suavemente intensa e radicalmente tolerante.
Ele (sorrindo): E você se arrepende?
Ela: De quê?
Ele: De tudo o que não vivemos juntos?
Ela: Não posso me arrepender, porque te amar me fez um bem danado.
Ele (ligeiramente assustado): É? Como assim?
Ela: Nosso amor não vivido me fez mais mulher e mais humana do que todos os outros amores vividos que tive.

E saíram caminhando tranquilamente de braços dados.


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