terça-feira, setembro 16

Poema em linha reta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos tأھm sido campeأµes em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes nأ£o tenho tido paciأھncia para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridأ­culo, absurdo,
Que tenho enrolado os pأ©s publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando nأ£o tenho calado, tenho sido mais ridأ­culo ainda;
Eu, que tenho sido cأ´mico أ s criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moأ§os de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angأ؛stia das pequenas coisas ridأ­culas,
Eu verifico que nأ£o tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheأ§o e que fala comigo
Nunca teve um ato ridأ­culo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senأ£o prأ­ncipe - todos eles prأ­ncipes - na vida...


Quem me dera ouvir de alguأ©m a voz humana
Que confessasse nأ£o um pecado, mas uma infأ¢mia;
Que contasse, nأ£o uma violأھncia, mas uma cobardia!
Nأ£o, sأ£o todos o Ideal, se os oiأ§o e me falam.
Quem hأ، neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
أ“ prأ­ncipes, meus irmأ£os,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde أ© que hأ، gente no mundo?

Entأ£o sou sأ³ eu que أ© vil e errأ´neo nesta terra?

Poderأ£o as mulheres nأ£o os terem amado,
Podem ter sido traأ­dos - mas ridأ­culos nunca!
E eu, que tenho sido ridأ­culo sem ter sido traأ­do,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

أپlvaro de Campos

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