A primeira vez que entrou no seu escritório, ela usava uma blusa vermelha de tecido leve que deixava perceber o contorno dos seios bem modelados e a proeminência de uma barriga mal comportada, o coque preso na nuca começava a se desfazer e um mecha de cabelo escorregava sobre o rosto. Ao entrar, quase tropeçou no tapete, reequilibrou-se, olhou o próprio salto alto com ar de desdém. Nitidamente irritada, ela declarava sua intolerância à toda forma de burocracia mas mantinha a voz macia e ponderada enquanto apareciam pequenas marcas de expressão trasnversais na fronte. Reparou ainda nas unhas bem feitas e em um delicado anel de rubi que trazia no anular direito. Imaginou se seria uma advogada e segurou um riso de ironia ao se lembrar da desabafo sobre burocracias.
Era tão comum ser o alvo desses arroubos de raiva cujo motivo ele não poderia ser culpado, ao contrário, esforçava-se arduamente, mediante bons pagamentos, para resolve-los que agora já não se importava mais. Riu discretamente ao perceber o esforço que ela fazia para manter a explosão de raiva de forma controlada e, percebeu que seu riso havia sido notado ao sentir o olhar de fúria que lhe foi lançado. Fingiu não notar, controlou-se, disfarçou e calmamente continuou tentando lhe explicar qual era o problema. Ela não pretendia entender. Dizia ter referências suficientes sobre sua competência e confiabilidade profissional e repetia: Faça o que tiver de ser feito! Faça o que tiver de ser feito!
Era uma mulher bela sem dúvida mas, de uma beleza comum. O que o agradou foi o desconforto na forma elegante sobre o salto alto, a aparência pouco natural da maquiagem bem feita, o corpo que pedia algodão sob a seda importada. O que amou, foi aquela nítida falta de adaptação ao que tentava demonstrar ser.