Quando você me disse que eu era a mulher da sua vida eu sabia que agora, em caminhos tão distantes, não voltaríamos mais a nos encontrar e, ainda que nos encontrássemos não seríamos mais as pessoas daquela despretensiosa noite de outono embebecidas em conversas intencionais. Senti uma melancolia que me fez sorrir. Minha melancolia era movida pelo medo de que tivesse acontecido e, se tivesse acontecido, amortecidos pelo peso da realização do desejo e entediados pelo prazer inerte da realidade então, teríamos caído.
É que nos foi dada a graça da não realização do amor. E, junto à não realização, ficou a eterna curiosidade do teu cheiro e a imaginação torturante do teu sabor confundidos com as lembranças do que não aconteceu.
Quando você me disse que eu era a mulher da sua vida eu soube que nunca fui, mas, descobri que adorava a sensação de acreditar que sim e de imaginar o que poderia ter sido para depois deixar de ser. Afinal, sempre tive mesmo um carinho especial pelos amores não realizados. E, quando meu coração repousa calmo e feliz no abraço do amor concretizado, são com os amores que poderiam ter sido que me delicio nos meus mais solitários sonhos.
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